Perdeu a mãe em 1902, com apenas um ano de idade. O pai casa-se com Maria José Monteiro, considerada pelo poeta sua segunda mãe.
Transferiu-se para o Rio de Janeiro ainda jovem. Continuou o ensino básico em regime de internato, no Colégio Salesiano de Niterói.
Conta o poeta, que o despertar da poesia aconteceu aos noves anos, durante a passagem do cometa Halley.
Em 1918, aos 16 anos fogiu do colégio para assistir à apresentação do bailarino e coreógrafo russo Vaslav Nijinski (1890-1950), no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Nessa mesma época, recusa-se a voltar ao colégio comunicando à família que queria ser poeta. Após várias tentativas do pai e da madrastra de fixá-lo num emprego, em 1920 vai morar com um irmão mais velho, na cidade do Rio de Janeiro.
Trabalhou como arquivista, dentista, telegrafista, auxiliar de guarda-livros, notário e Inspetor Federal de Ensino. Começou a Faculdade de Farmácia mas abandonou o curso no segundo ano.
Entre 1924 e 1929, escreveu para as primeiras publicações modernistas, como a Revista de Antropofagia (de São Paulo, SP), Terra Roxa e Outras Terras (de São Paulo, SP), e Verde (de Cataguases, MG).
Em 1930, com apoio financeiro do pai, edita seu primeiro livro, Poemas, pelo qual recebeu o Prêmio Graça Aranha. Neste mesmo ano escreveu Bumba-Meu-Poeta (publicado 29 anos depois, em 1959) e em 1932 publica História do Brasil.
Perspectiva da Sala da Jantar
de Poemas
A filha do modesto funcionário público
dá um bruto interesse à natureza-morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.
O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.
A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.
Em 1934, o mundo atravessava uma grave crise econômica, política e ideológica. Neste cenário, a morte do amigo Ismael Nery (pintor, filósofo e poeta), Murilo atravessa um período de grande abalo em sua crença religiosa. Retorna ao Catolicismo e com Jorge de Lima dedicou-se à "restauração da poesia em Cristo". O resultado é o livro Tempo e Eternidade, de 1935. No ano seguinte publica O sinal de Deus, poemas em prosa logo retirado do mercado pelo autor.
Os traços religiosos desapareceram nas obras subseqüentes. A profunda destruição da Segunda Guerra Mundial e o período de tensão da guerra fria marcaram profundamente a poesia muriliana: A poesia em pânico (1938), As metamorfoses (1944), Mundo enigma (1945), Poesia Liberdade (1947) e Janela do Caos (1949, publicado na França). Num poema a João Cabral de Melo Neto, assim como em várias outras ocasiões, o poeta se define como defensor da paz: "Comigo e contigo a antibomba / A flor azulbranca da paz."
Conhecimento
de A Poesia em Pânico
A marcha das constelações me segue até
no lodo.
Estendo os braços para separar os tempos
E indico ao navio de poetas o caminho do pânico.
Quem sou eu? A sombra ambulante de meus pais até o primeiro homem,
Quem sou eu? Um cérebro deixado em pasto aos bichos,
Sou a fome de mim mesmo e de todos,
Sou o alimento dos outros,
Sou o bem encarcerado e o mal que não germina.
Sou a própria esfinge que me devora.
Casou-se em 1947 com a poetisa Maria da Saudade Cortesão, filha do historiador e poeta português Jaime Cortesão, exilado no Brasil por se opor à ditadura de Antonio Oliveira Salazar, que persistiu até 1970.

De 1953 a 1955 percorreu diversos países da Europa, divulgando em conferências, a cultura brasileira. Contemplação de Ouro, de 1954, traz a atmosfera das velhas cidades mineiras. Em 1957, fixa-se na Itália onde lecionou Literatura Brasileira na Universidade de Roma. Seu apartamento na via del Consulato 6, no centro da capital italiana, tornou-se ponto de referência para escritores e artistas plásticos europeus, que o ajudaram a formar um importante acervo de arte contemporânea, hoje pertencente ao Museu Murilo Mendes, em Juiz de Fora.
São Francisco de Assis de Ouro Preto
A Lúcio Costa
Solta, suspensa no espaço,
Clara vitória da forma
E de humana geometria
Inventando um molde abstrato;
Ao mesmo tempo, segura,
Recriada na razão,
Em número, peso, medida;
Balanço de reta e curva,
Levanta a alma, ligeira,
À sua Pátria natal;
Repouso da cruz cansada,
Signo de alta brancura;
Gerado, em recorte novo,
Por um bicho rastejante,
Mestiço de sombra e luz;
Aposento da Trindade
E mais da Virgem Maria
Que se conhecem no amor;
Traslado, em pedra vivente,
Do afeto de um sumo herói
Que junta o braço do Cristo
Ao do homem seu igual.
Participou do movimento Antropofágico, revelando-se um conhecedor da vanguarda artística européia. Ao mesmo tempo, manteve-se fiel às imagens mineiras, mesclando-as às da Sicília, Espanha, carregadas de história. Publicação de Tempo espanhol, em 1959.
Durante o tempo em que esteve na Europa, publicou Office humain (1954 - França), Siciliana (1959 - Itália), Poesie (1961 - Itália), Finestra del caos (1961 - Itália), Siete poemas inéditos (1961 - Espanha), Poemas (1962 - Espanha), Antologia Poética (1964 - Portugal), Le Metamorfosi (1964 - Itália), Italianíssima (1965 - Itália), Poemas inéditos de Murilo Mendes (1965 - Espanha) e Poesia Libertá (1971 - Itália). O livro Italianíssima traz sete murilogramas. Em 1972 recebeu o prêmio internacional de poesia Etna-Taormina, na Itália.

Publicou ainda O discípulo de Emaús (1944, prosa), Poesias (Obra completa até esta data)" (1959), Poliedro (1962, prosa), A idade do serrote (1968, prosa), Convergência (1970), Retratos-relâmpago, 1ª série (1973), Antologia Poética (1976) e Poesia Completa e Prosa (1994).
Faleceu e foi sepultado em Lisboa, no dia 13 de agosto de 1975. Deixou várias obras inéditas que foram publicadas em Antologia Poética (1976) e Poesia Completa e Prosa (1994).
Em 1997, a TV Cultura convidou diversos diretores de cinema e artistas de outras áreas para realizarem pequenos filmes de, no máximo, três minutos dentro um projeto nominado de "Matéria Assinada", que foi veículado semanalmente no programa METRÓPOLE. Carlos Reichenbach, munido de uma câmera Hi-8, convidou parentes e amigos para escolherem algumas frases e pequenos textos poéticos de Murilo Mendes (seu poeta preferido) e interpretá-los para a câmera. Além de ter filmado à si próprio declamando, captou imagens da nuca de sua mulher, Lygia, e o os olhos de seu poodle-toy Nikky. Editou com este material sua "viajem" pessoal ao universo lírico e místico de Mendes. O ensaio audiovisual possui as últimas imagens filmadas de dois saudosos amantes do cinema: Jairo Ferreira e Tânia Savietto. Os cineastas Joel Pizzini e Sérgio Silva integram,ao lado do filho mais novo de Reichenbach (Luis Ronaldo), o "elenco" de MURILOLENDO.
Fontes: Culturatura,
Alguma
Poesia (Carlos Machado) e livros
Para saber mais: Senac
Sergipe e Revista
Brasileira
Pesquisa: Elida Kronig
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