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Liter & Art Brasil

movimento cultural de literatura e arte do brasil

Memórias de uma borboleta encantada
Sandra Reis

Era uma vez uma borboleta lindíssima. Borboleta era pouco.
Todos a chamavam de Butterfly. Elegante, asas finíssimas e coloridas, desafiava os caçadores que em vão tentavam pegá-la.
Quando menina, era uma lagarta feia e desengonçada. Agora, na adolescência, só pensava em sol, luz e liberdade.
Orgulhava-se de não ser mariposa e de ajudar na fecundação das flores, transportando de flor em flor o pólen.
Naquela manhã, ela não teve medo das redes. Abriu as asas e alcançou a árvore mais próxima. E ali ficou. Não se ouvia sequer um ruído.
Mas ela não estava sozinha. Viu um homem que ia em sua direção. Por um instante, pensou em fugir. Porém, quando se foge, aí é que correm atrás. Ela tinha coragem. Ficou parada. De repente, começou a chover. O homem virou-se e partiu. Ela deu um suspiro de alívio.
Perto dali, havia um chalé onde o homem morava. Diziam que ele era fiscal, talvez da natureza.
Duas meninas aproximaram-se e ficaram observando a borboleta.
A mais alta chamava-se Luciana e a menor, Clara.
- Que lindo quadro daria no meu quarto! disse Luciana.
O pai da menina costumava colecionar borboletas.
E Butterfly, por um instante, teve medo de perder o vento e a liberdade que tanto amava.
O inverno chegou e, com ele, a geada. Butterfly protegeu-se do frio e ficou muito tempo sem poder voar. Para passar o tempo, escrevia no seu diário e assim começou a recordar o passado...
Lembrou-se de quando era professora de vôo acrobático na
Escola Natureza e ensinava para pássaros e insetos voadores.
Lembrou-se da Rosa, sua amiga, tão linda, e do poema que fez para ela:
" Aquela Rosa faceira
Que de dia sorri para mim
Exala um perfume cheiroso
Bem no meio do jardim."

E deste modo, a linda borboleta conta seus segredos, como sua amizade com o elefante Apolo, com o qual ela passeava de carona sobre a orelha direita.
Apolo era um elefante de circo, forte e elegante. Ficava um pouco ridículo com aquele lacinho no rabo.
Um dia, ele fugiu do circo com Butterfly e os dois viveram uma aventura fascinante, até que Apolo apaixonou-se por uma linda ratinha chamada Clarissa.
Butterfly não agüentava mais ficar sem voar e resolveu sair,
mesmo com o frio, mas antes escreveu no diário:
"Querido diário,
Hoje eu escrevo para dizer que não vou escrever nada!"

E ela voou, e todos tiveram receio, mas ela não se importava com o frio, só queria voar.
E voou para longe, muito longe e não voltou mais.

Os animais da selva fizeram-lhe uma homenagem e o elefante fez um discurso seguido de um ritual.

Estava começando o verão....
O mês de dezembro estava quente.
Naquela manhã, um grupo de meninos uniformizados brincava
no jardim, alguns desenhavam, outros pintavam. Riam de tudo em torno deles.
As flores espalhavam o perfume na relva e a poesia insinuava-se no ar.
Raphael terminou sua tela e entregou à professora Bia. Ela sorriu e o abraçou. Nunca vira uma tela de borboleta mais bela.
Porém, onde estava a borboleta que ninguém viu? Teria ele
imaginado? As cores eram lindas!
De longe os animais espiavam e comentavam:
- Era o retrato de Butterfly!
A tela foi para uma exposição e foi comprada por uma menina de 15 anos chamada Luciana.
Feliz, ela subiu ao quarto e colocou o quadro na parede.
Ficou quieta observando e, por um instante, pensou ter visto uma borboleta entrar pela janela e, como se não bastasse, um perfume de rosas se instalou naquela manhã radiante de sol.

Sandra Reis escreve poesias, contos e crônicas, para adultos e crianças. Membro do Poesia Simplesmente.

Em Edições Anteriores, encontrará mais textos da escritora.

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